Episódio 13. Os acidentes felizes da aguarela
Olá!
Dou-vos as boas-vindas a este episódio do podcast "Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação".
Esta semana quero falar-vos de um fenómeno que acontece quando pinto com aguarelas e que gosto de classificar como “acidentes felizes”.
Espero que desfrutem.
Neste episódio mencionamos:
Desenhamos Juntas, a sessão semanal em que desenhamos em diário gráfico, umas com as outras.
Recursos para começar a desenhar e a pintar com aguarela.
“Conectar para Liderar, o meu programa de grupo para mulheres que desejam voltar a reconectar-se com a sua criatividade, quer tenham inclinação artística, quer não.
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Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em www.airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
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Créditos: “Cover Girl” de Beat Mekanik
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Dou-te as boas-vindas a mais uma confissão de uma super-perfeccionista em recuperação, um podcast sobre perfeccionismo, criatividade e empoderamento.
Nestas confissões, vou partilhar contigo os altos e baixos do meu longo caminho de recuperação do super-perfeccionismo.
Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.
Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”. Esta semana quero falar-vos de um fenómeno que acontece quando pinto com aguarelas e que gosto de classificar como “acidentes felizes”.
A aguarela é um meio muito simples: é uma pastilha de pigmento comprimido que, quando tem água em contacto, faz uma tinta, mais ou menos espessa, conforme a quantidade de água, e mais ou menos opaca, conforme o tipo de pigmento.
A maioria das vezes, manipulamos a aguarela com um pincel, ou então com uma “caneta-pincel”, aquelas canetas que têm um reservatório de água incluído e que na ponta, em vez de um aparo, ou um feltro, têm um pincel.
Não sei se já vos disse, mas eu adoro aguarela. Primeiro, porque como já vos vinha dizendo, a aguarela é um meio muito simples de usar, em que misturamos alguma água com algum pigmento e daí resulta alguma tinta.
Agora imaginem fazer aqui algumas alterações simples a esta fórmula básica da aguarela. Vamos supor que, com o nosso pincel, começamos por pintar no nosso diário gráfico só com água, ainda sem pigmento, deixando manchas de água na página.
Parece tinta invisível e remete para mistério, não é?
Agora, passamos o nosso pincel por um pano ou papel que lhe retire alguma água em excesso e vamos buscar pigmento, com pouca água.
E agora, venham comigo, imaginem este pincel com o pigmento na ponta das suas cerdas, cerdas essas que vão tocar levemente na bolha de água que tínhamos deixado no papel.
Sabem o que acontece aqui? Aqui acontece magia. Porque a tinta espalha-se pela água em padrões muito próprios que captam, com inifinitas variações, a quantidade de água e de pigmento, a energia com que as cerdas tocaram na bolha de água e a quantidade de pigmento que deixaram. Tudo registado em padrões de variações inifinitas e de minúsculo detalhe – tudo feito pelas forças da física e da mãe natureza para nos trazer deleite e prazer.
Porque deleite e prazer é algo que eu tenho sempre que fico a observar o espectáculo da propagação do pigmento pela água. É lindo, mágico, maravilhoso, e se eu quisesse repetir intencionalmente, mas com outro material, as marcas que a aguarela faz é improvável que alcançasse os mesmos resultados.
Este é um dos acidentes felizes da aguarela, e é um daqueles que me faz ter vontade de ir pintar mais um bocadinho, mais uma vez, com as aguarelas.
Gosto muito de pintar em aguarela porque o facto de usar um pincel (ou uma caneta-pincel, apesar de ser ligeiramente diferente) me retira controlo do resultado. Imaginem: enquanto que com um lápis afiado, ou com uma caneta, eu consigo fazer um risco onde eu quero e com a espessura constante, a flexibilidade das cerdas do pincel retira-me esse controlo. A mancha que eu faço com o pincel de aguarela não me permite o mesmo grau de rigor que teria se usasse um lápis afiado; mas abre-me margem para variações eventualmente acidentais na qualidade do traço feito com pincel. Posso fazer um traço com espessura variável, por exemplo, conforme carrego mais ou menos no pincel. E, por ser um meio húmido, a aguarela deixa uma característica própria que os meios digitais tentam reproduzir, com sucesso relativo, que é aquilo a que se chama de “wet edges”, ou seja, os contornos molhados do traço. Na prática, uma mancha feita com aguarela, se a formos observar com atenção, tem um contorno muito específico que lhe é característico e que é facilímo de fazer com aguarela, e dificílimo de reproduzir com outro material.
Quando estamos nas nossas sessões de Desenhamos Juntas, é muito divertido trabalhar com aguarela precisamente por causa dos acidentes felizes, aquelas coisas surpreendentes, não intencionais, que acontecem quando pincelamos ao abandono, sem tentar controlar muito o resultado. Por vezes é a maneira mágica e hipnótica como as cores se misturam; outras vezes é como as manchas ficam depois de secas; às vezes é a maneira como se nota – ou não se nota – uma pincelada. Enfim, a magia acontece – e acontece apesar de nós.
A magia acontece apesar de nós porque nós temos dentro de nós uma força que deseja, de alguma forma, controlar o resultado. E deseja, também, que esse resultado se pareça com uma versão que idealizámos na nossa fantasia. Essa força deseja também que o resultado do que desenhámos seja o mais próximo de uma representação foto-realista daquilo que estivemos a desenhar. E, por isso, mesmo quando trabalhamos com um pincel, que nos dá algum grau de controlo, mas não muito, nós queremos controlar o resultado.
Só que a aguarela tem as suas características próprias (e eventualmente até alguns pozinhos mágicos de perlimpimpim, atrevo-me a pensar) e acaba por fazer o que quer e ser como ela é. Nós definimos alguns limites, mas a aguarela é como é.
(Abro aqui um parêntesis para vos dizer que agora que penso nisso, é mais ou menos como na educação dos filhos: nós estabelecemos alguns limites, e eles crescem para serem como eles são, e não como nós gostaríamos que fossem. Quem havia de pensar que há um paralelo entre pintar com aguarela e a educação dos filhos? Eu não, confesso, mas agora aqui estamos. Fecho parêntesis.)
Voltando à aguarela, e eventualmente deixando os paralelos com a educação das crianças para trás (não prometo que fiquem totalmente para trás, confesso), a aguarela faz o que tem a fazer e, no final do exercício, mostra-nos que quanto mais soltamos o controlo, mais ela nos surpreende com a sua magia.
Não sei se já vos disse que adoro pintar com aguarela? Não? Sim? Talvez 54 323 vezes? Quem sabe?
Mas adoro, e quero convidar-vos a virem descobrir a alegria de desenhar com aguarela, também. E faço desde já a convocatória para toda a gente que queira experimentar, independentemente da percepção individual do seu “jeito” para desenhar ou pintar.
Não é preciso ter aquilo a que costumamos chamar de “jeito” para pintar ou desenhar. Apenas se necessita ter vontade de experimentar. E é tudo. Por vezes pode ser um pouco desencorajador experimentar fazer algo pela primeira vez. É tudo novidade: que materiais preciso? Que tenho de comprar? Eu gosto sempre de dizer que é preferível comprar menos, mas da máxima qualidade que pudermos. E depois vamos completando a nossa colecção.
Quando comecei, comprei um estojo vazio, próprio para aguarelas, e comprei umas três ou quatro cores diferentes. Todos os meus desenhos eram feitos só com essas cores. E depois, gradualmente, fui incorporando cores novas, e cada cor conta-me uma história diferente: lembro-me do lugar onde a comprei, ou de com quem estava quando a comprei.
Não tenho ainda o estojo completamente cheio, mas não faz mal. Porque ao comprar as cores gradualmente, não só posso comprar material de melhor qualidade, como também tenho tempo de as experimentar com muita calma.
Com o uso, descobri, por exemplo, que adoro metalizados (e as minhas filhas, que muitas vezes me pedem para fazer desenhos no meu bloco, também). Descobri também que o roxo que comprei tem uma profundidade incrível e uma enorme amplitude de tons conforme a quantidade de água que lhe adiciono. Descobri ainda que alguns pigmentos são ligeiramente mais suaves, outros ligeiramente mais ásperos ao toque do pincel.
Assim, comprando aos poucos, testando, usando, desfrutando, posso ir fazendo uma colecção que é realmente minha, da qual desfruto verdadeiramente, e a um ritmo que me permite apreciar os acidentes felizes da aguarela.
Os acidentes felizes da aguarela ensinam-nos muitas coisas, uma delas, e porventura a mais importante, é que quando confiamos e soltamos o controlo, a magia acontece e fica registada no papel.
Se tiverem vontade de ter acidentes felizes da aguarela e não souberem por onde começar, visitem a página de Recursos no meu site, onde poderão encontrar um guia gratuito que vos orientará nos primeiros passos. E, semanalmente, encontramo-nos à hora de almoço, online, para desenharmos juntas.
Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
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E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.
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