Sept. 30, 2025

Episódio 14. Quando um desenho não é só um desenho

Episódio 14. Quando um desenho não é só um desenho
Quando um desenho não é só um desenho
Olá!
Dou-vos as boas-vindas a este episódio do podcast "Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação".

Esta semana, falamos sobre o que acontece na nossa cabeça no acto de desenhar.

Vamos então imaginar-nos nessa situação: estamos de diário gráfico à nossa frente, de pincel na mão, as aguarelas ao lado. O que é que acontece aí? O que é que nos dizemos a nós próprias? Que impulso nos leva a levantar a mão e mergulhar o pincel na água, e depois na pastilha da aguarela? Que barreiras estamos a quebrar, nesse momento em que iniciamos o movimento? E que obstáculos vamos superar quando o pincel tocar no papel?

Espero que desfrutem.

Neste episódio mencionamos:
Guia gratuito para começar (e manter!) um diário gráfico.
Desenhamos Juntas, a sessão semanal em que desenhamos em diário gráfico, umas com as outras.
Conectar para Liderar, o meu programa de grupo para mulheres que desejam voltar a reconectar-se com a sua criatividade, quer tenham inclinação artística, quer não.
Onde podem subscrever o podcast para serem as primeiras a saber quando há novos episódios.

Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em www.airdesignstudio.com e no Instagram como @‌air_billy.

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E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.

Créditos: “Cover Girl” de Beat Mekanik

Podcast

Todas as terças, recebe na tua caixa de correio uma Confissão de uma super-perfeccionista em recuperação.

Dou-te as boas-vindas a mais uma confissão de uma super-perfeccionista em recuperação, um podcast sobre perfeccionismo, criatividade e empoderamento.

Nestas confissões, vou partilhar contigo os altos e baixos do meu longo caminho de recuperação do super-perfeccionismo.

Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.

Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.

Hoje, na hora de começar a preparar este episódio, tinha apenas uma frase como ponto de partida: “quando o desenho não é só desenho”. Bom, nem qualifica como frase. Li isto e a minha mente disparou.

Normalmente, quando estou a preparar ideias para os episódios de “Confissões”, costumo deixá-las um bocadinho mais explícitas para mim própria. Isto, porque a esta altura do campeonato, já não posso ter a certeza de que a minha cabeça se vai lembrar exactamente do que tinha em mente quando anotei aquela ideia, e por isso tento sempre deixar mais pistas para a Billy do futuro.

Mas desta vez… não. A Billy do passado não quis saber e hoje aqui estou eu, com uma frase e sem mais pistas sobre aquilo que tinha pensado para hoje.

Mas a Billy do presente – ou seja, euzinha da silva, hoje – leio esta frase e a minha cabeça disparou. Não em mil direcções, mas várias ideias borbulharam até à superfície da minha mente consciente e agora o meu desafio é ver se as consigo organizar de forma coerente para partilhar convosco porque é que às vezes o desenho não é só desenho.

O desenho raramente é só desenho, diria eu, até porque o desenho tanto serve para fazer desenhos técnicos de aviões, barragens, montanhas russas e mísseis como serve para explicar uma ideia ou um sentimento. Lembro-me bem dos postais que desenhava para as minhas sobrinhas, antes de elas saberem ler, e depois para as minhas filhas, também antes da alfabetização. Eram desenhos muito simples mas que comunicavam – ou que eu tentava que comunicassem – o que estávamos a fazer ou que coisas tínhamos visto.

Também nos podemos aqui lembrar do desenho em cartazes publicitários ou propagandistas, enfim, acho que podemos afirmar e estar de acordo que raramente o desenho é só desenho.

Mas o que eu quero trazer aqui hoje à colação prende-se mais com o que acontece na nossa cabeça no acto de desenhar. Vamos então imaginar-nos nessa situação: estamos de diário gráfico à nossa frente, de pincel na mão, as aguarelas ao lado. O que é que acontece aí? O que é que nos dizemos a nós próprias? Que impulso nos leva a levantar a mão e mergulhar o pincel na água, e depois na pastilha da aguarela? Que barreiras estamos a quebrar, nesse momento em que iniciamos o movimento? E que obstáculos vamos superar quando o pincel tocar no papel?

Neste momento, é inevitável pensar no que acontece nas sessões de Desenhamos Juntas, em que eu estou como facilitadora. Mas a minha mente voou numa viagem ao passado até aos anos em que vivi em Buenos Aires, na Argentina, muitos anos antes da pandemia e das sessões zoom. Viajei até às aulas de pintura, que fazia semanalmente na Associação dos Amigos do Museu de Belas Artes, e depois aos workshops que o professor dava mensalmente no seu atelier, ambas circunstâncias em que eu estava como participante, e onde eu entrava de uma forma e saía uma pessoa diferente, transformada por essa vivência intensa e intensiva em que cada exercício era um desafio. A cada proposta do professor, um momento de dúvida em que me perguntava: “serei capaz?”. Mas depois, em boa verdade, tinha pouco tempo para me dedicar às dúvidas, porque imediatamente nos lançávamos, alunas e alunos, para o desafio. Criava-se um ambiente de cumplicidade entre os participantes, claro, que se estendia ao professor e ao modelo ou aos modelos (por vezes no plural), porque todos sentíamos que o que ali se passava, em cada exercício, era especial.

Os exercícios variavam, e estavam desenhados para pôr o nosso cérebro numa situação “apertada”, por assim dizer. Ao criar algumas condições para que o cérebro não pudesse cair em automatismos, éramos obrigados a criar, inventar, desenterrar soluções – obrigados pelo exercício em si e pelo limite de tempo para o fazer.

Concluídos os exercícios, sentávamo-nos todos a ver os trabalhos uns dos outros e a apreciá-los. O foco era a maneira engenhosa como o nosso corpo iludia os automatismos do cérebro e chegava a soluções muito interessantes e que muitas vezes nem sequer sonhávamos que tínhamos dentro de nós.

Confesso-vos: depois de um dia de workshop, chegava a casa de corpo exausto, mas de mente borbulhante com todas as mudanças, todas as soluções que tinha encontrado quando pensava que não iria ter tempo nem maneira de encontrar nenhuma. E isto tudo vivido num contexto de grupo, em que todos passávamos pelas mesmas provas, pelos mesmos desafios, e saíamos transformados.

Voltando ao presente, nas sessões de Desenhamos Juntas fazemos algo parecido, mas num formato curto (afinal de contas, acontece à hora de almoço!) e também online. Como facilitadora, procuro exercícios que simulem esse “aperto” ao cérebro, em que o cérebro não pode recorrer aos automatismos que já conhece e em que temos de ir buscar, desenterrar ou surpreender soluções que existem dentro de nós, mas que não sabíamos que lá estavam.

Nestas sessões, o efeito de grupo é o mesmo, e bem perceptível: passamos juntas pelo desafio, e saímos dele diferentes. É nestas alturas que um desenho não é mesmo só um desenho. Um desenho é um momento de descoberta de algo que está dentro de nós, mas que nunca tínhamos visto. Um desenho é um momento de expansão em que descobrimos que afinal de contas aquilo que achávamos que sabíamos ou não sabíamos fazer não corresponde verdadeiramente à realidade. Um desenho é um momento de aperto, sim, porque os exercícios podem ser rápidos e desconfortáveis, mas é um momento de entrega, quase de rendição, em que no “perdido por cem, perdido por mil” se encontra paz e acontecem pequenos milagres.

Bem, quem me ouvir falar assim pode pensar que em cada sessão corremos risco de vida, ou que fazemos algo muito radical. Podem ficar tranquilas e tranquilos, nada disso acontece! Os riscos que corremos são todos muito relativos: mas apesar de serem mínimos, na nossa vida real, o cérebro percepciona estes desafios como um assalto às suas funções automáticas, e isso é assustador para ele e para o nosso crítico interno, que irá entrar imediatamente em acção.

E também é por isso que um desenho não é só um desenho: um desenho é também um exercício de abrandamento desses automatismos do cérebro, para nos voltarmos a focar no que temos entre mãos, para os olhos redescobrirem a sua capacidade de ver e para treinarmos a ligação entre olhos, cérebro e mãos. Quando desligamos os automatismos do cérebro, praticamos uma nova relação com o nosso crítico interno.

Imaginem o seguinte cenário: vão na rua, acontece um percalço qualquer, como por exemplo tropeçar numa pedra da calçada. E o crítico interno, com medo que possamos cair e magoar-nos, e no seu afã de nos proteger, começa uma conversa do género: “que desastrada, estavas sem atenção! Acontece-te sempre isto.” E por aí vai.

Agora imaginem que estão a desenhar com a vossa mão não dominante. O crítico vai dizer-vos qualquer coisa do género: “ui, isso não vai dar certo, não consegues uma linha direita, imagina o que será fazer esse desenho todo.” Como estamos tão focadas a desenhar com a mão não dominante, nós ouvimos esta voz e redobramos a atenção na mão e no movimento que queiramos que faça. De alguma forma, esta transição do foco de atenção para o que queremos que a mão faça acaba por baixar o volume à voz do crítico interno. E isso cria um distanciamento.

Com a repetição destes exercícios que nos obrigam a pôr o foco no presente, no que estamos a fazer agora, vamos criando um certo distanciamento da voz do crítico interno, o que nos vai ajudar a baixar o volume à sua voz e a relativizar o poder das suas palavras. E quando formos na rua e de repente tropeçarmos numa pedra da calçada, como no exemplo que dei acima, e se o crítico nos disser que somos distraídas, ou desastradas, nós vamos ganhar distância do que nos diz, perceber que o crítico fala sempre do medo que tem e do qual nos quer proteger, só que exagera um bocadinho na intensidade das suas palavras.

Apesar de todos estes benefícios do desenho, que não são poucos, acho que ainda não falei da coisa mais importante: um desenho não é só um desenho, porque um desenho é também alegria, é surpresa, é deslumbramento. Um desenho é uma viagem no tempo, em que voltamos a ser principiantes e a ver o mundo com olhos de criança; e um desenho é também uma viagem no espaço, em que nos maravilhamos com aquela pequena mancha, aquele pequeno detalhe, como se misturaram aquelas duas cores ou como saiu aquela pincelada.

Um desenho não é só um desenho porque expande quem nós achamos que somos, e quando o desenhamos com companhia, essa alegria é partilhada entre todos. É mágico.

Para o caso de terem ficado com vontade de experimentar desenhar ou pintar, criei um guia gratuito que está disponível no meu site, na página de recursos. E, claro, podem juntar-se a nós no Desenhamos Juntas.

Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em airdesignstudio.com e no Instagram como @‌air_billy.

Se não queres perder nenhum episódio, poderás subscrevê-los na tua plataforma preferida de podcasts, ou então assinarr a newsletter em airdesignstudio.com para os receberes semanalmente na tua caixa de correio.

E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.

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