Nov. 17, 2025

Episódio 21. Sobre a viagem a Macau

Episódio 21. Sobre a viagem a Macau
Episódio 21. Sobre a viagem a Macau
Olá!
Dou-vos as boas-vindas a este episódio do podcast "Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação".

Escrevo o guião deste episódio em Macau, já quase no final da minha estadia, e praticamente terminados os compromissos profissionais. Quero contar-vos tudo sobre esta experiência, sabendo já que me vou esquecer de muita coisa.

Espero que desfrutem.

Neste episódio mencionamos:
Guia gratuito para começar (e continuar) a desenhar todos os dias.
Desenhamos Juntas, a sessão semanal em que desenhamos em diário gráfico, umas com as outras.
Conectar para Liderar, o meu programa de grupo para mulheres que desejam voltar a reconectar-se com a sua criatividade, quer tenham inclinação artística, quer não.
Onde podem subscrever o podcast para serem as primeiras a saber quando há novos episódios.

Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em www.airdesignstudio.com e no Instagram como @‌air_billy.

Se não queres perder nenhum episódio, poderás subscrever a newsletter para os receberes semanalmente na tua caixa de correio.

E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.

Créditos: “Cover Girl” de Beat Mekanik

Podcast

Todas as terças, recebe na tua caixa de correio uma Confissão de uma super-perfeccionista em recuperação.

Antes de começar o episódio desta semana, quero contar-te que já abrimos as inscrições para o Desenhamos Juntas. O Desenhamos Juntas é um encontro semanal, à segunda-feira, às 13h de Lisboa, em que, durante aproximadamente 40 minutos, vamos fazer exercícios de desenho para soltar o perfeccionismo e aconchegar a alma. O link para a página do Desenhamos Juntas vai estar nas informações deste episódio.

Dou-te as boas-vindas a mais uma confissão de uma super-perfeccionista em recuperação, um podcast sobre perfeccionismo, criatividade e empoderamento.

Nestas confissões, vou partilhar contigo os altos e baixos do meu longo caminho de recuperação do super-perfeccionismo.

Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.

Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.

Quero começar este episódio agradecendo a toda a equipa da Casa de Portugal em Macau. Sem vocês, esta viagem a Macau não teria sido possível – e este episódio ainda menos.

Escrevo o guião deste episódio em Macau, já quase no final da minha estadia, e praticamente terminados os compromissos profissionais. Quero contar-vos tudo, sabendo já que me vou esquecer de muita coisa, e sabendo também que há uma boa parte dos minutos que se seguem que será uma tentativa de descrever, provavelmente com sucesso moderado, as muitas emoções aqui vividas.

Para quem não sabe, vivi em Macau entre os meus 9 e os meus 18 anos, ainda durante a administração portuguesa, o que significa que já foi no século passado. Vim para Macau em 1987 e em 1996 regressei a Lisboa para estudar Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes.

Entre 1987 e 1996, cá em Macau, descobri um mundo muito maior do que alguma vez poderia ter imaginado. Porque em Macau, uma cidade bem pequena plantada à beira do Mar do Sul da China, e no delta do Rio das Pérolas, há uma confluência de culturas que não existia na pequena aldeia da grande Lisboa em que eu vivera até esse momento.

Macau, cidade pequena, tem vindo a fazer sucessivos aterros e sofrendo uma enorme transformação. Gostaria de dizer que a transformação é gradual, só que não: em Macau, a transformação acontece da noite para o dia, e basta uma curta ausência para se notar logo diferenças.

Voltei a Macau algumas vezes no decorrer destes anos, mas entre crianças e covid, passaram-se dez anos desde a última vez que cá tinha vindo. As diferenças são imensas, desde logo porque se antes chegávamos a Hong Kong e ainda tínhamos de ir de autocarro para o cais do jetfoil, para depois fazer mais uma hora de viagem de barco até Macau… agora isso já não acontece. O aeroporto, localizado numa ilha entre o centro de Hong Kong e o território macaense, está ligado por uma ponte rodoviária de 55 kms, e agora o trajecto faz-se de autocarro. Quando cheguei ao terminal do autocarro em Macau, não me consegui localizar. Não entendi onde estava, nem me consegui posicionar no mapa mental que tenho desta península. Simplesmente fiquei baralhada, e mantive-me baralhada durante bastante tempo, até que consegui visualizar onde é que aquele novo aterro se posiciona no mapa que eu conhecia.

Isto pode parecer estranho, mas o não entender onde estava deixou-me meio tonta e com dificuldade em convocar as memórias que tinha do antigamente.

Aliás, essa questão de convocar as memórias que tinha do antigamente foi algo que se manteve durante toda a estadia: se há zonas que se mantêm semelhantes, tal como o centro histórico, que é património da Unesco, muitas outras zonas há que são completamente novas.

No tempo em que cá vivi, a península de Macau ligava-se à ilha da Taipa por uma ponte. Entre a Taipa e Coloane havia um istmo. Hoje, são três pontes que ligam Macau e a Taipa, mas parece que já há uma quarta ponte prevista ou em construção. E o que antes eram as duas ilhas da Taipa e Coloane, hoje é uma só, ligadas por um aterro gigantesco onde temos hotéis e casinos ao género de Las Vegas – e já me disseram que são ainda maiores que em Las Vegas. Não me surpreenderia nada.

Não se espantem se esta informação sobre pontes e aterros rapidamente ficar obsoleta – em Macau, a construção acontece de forma muito mais rápida do que em Portugal podemos sequer imaginar.

(Abro aqui um parêntesis para vos contar a nossa imensa perplexidade ao comparar as velocidades de construção entre Macau e Portugal. Aqui entre nós que ninguém nos ouve, continuamos à espera da abertura da estação do Metro da Estrela, que estava prevista para 2023… Como dizia um amigo meu, “em Portugal, pensa-se muito e faz-se pouco. Em Macau, pensa-se pouco e faz-se muito”.)

Fecho o parêntesis sobre as diferentes velocidades e entro por um tema anexo, que é os sons. Bem, os sons, os cheiros, os estímulos em geral. Em Macau, há sempre um certo nível de ruído de fundo, noite e dia. Sejam as ventoinhas dos ares condicionados, sejam os autocarros, ou as muitas pessoas que cá vivem e que andam pelas ruas, é garantido que não há silêncio, seja noite ou dia. O mesmo acontece com os cheiros, desde incensos até às mangas, aquelas muito pequeninas, que quando ficam maduras têm um cheiro bem forte e às vezes não tão saboroso quanto o seu gosto doce. Visualmente, os estímulos são constantes, mais a mais porque cada prédio se enche de letreiros, luzes, néons, e em muitos lugares da cidade os olhos não chegam a alcançar o horizonte, pois há um – ou muitos – arranha-céus pela frente. Daqui de onde estou, sentada à mesa de jantar da casa da minha amiga, olho para fora e vejo prédios altos, o mais alto deles, claro, o do Banco da China. Daqui de onde estou, há 35 anos víamos o rio, a ponte e a ilha da Taipa. Agora, vejo janelas de prédios e ecrãs luminosos.

Não pensem que olho com tristeza para as muitas mudanças de Macau; se há algumas que me assustam, há muitas outras que me mostram só uma realidade completamente diferente daquela que vivemos em Portugal, em que os recursos são menores, mas o espaço é maior.

Pelo contrário: estas duas semanas foram de muita emoção. Por um lado, foi uma enorme alegria poder levar as minhas filhas a conhecer os lugares onde passei a minha adolescência. Com a idade que tem hoje a minha filha mais velha, já eu vivia em Macau há alguns anos. Cada esquina da cidade trouxe-me uma memória desses tempos, e foi lindo, lindo, poder partilhar essas histórias com elas e com o Paulo.

Trouxe-me muita emoção ver quantas mudanças foram para melhor: quando cá cheguei, em 1987, a cidade estava muito suja; nos anos 90, houve uma mudança na gestão da recolha do lixo e a cidade transformou-se da noite para o dia. De cheiro do lixo a apodrecer na rua, começámos a ter ruas limpas e cuidadas. Hoje, isso é ainda mais evidente: o espaço público é cuidado por todos, com inúmeros funcionários a tratar de jardins, a limpar ruas, a esvaziar caixotes do lixo. Os sanitários públicos, imaculadamente limpos, são gratuitos e estão espalhados por toda a cidade. Em alguns deles, há bebedouros com água filtrada em que podemos encher as nossas garrafas. Até beatas é raro encontrar no chão da cidade!

Este cuidado com o espaço público é algo que adoraria ver também em Lisboa, aliás, como podemos ver em vários lugares de Portugal, nomeadamente nas ilhas dos Açores.

Aqui em Macau, os autocarros passam constantemente, são modernos e estão limpos, mesmo em hora de ponta.

Enfim, dá para notar que gosto muito de estar numa cidade onde os transportes públicos funcionam e as ruas não estão pejadas de lixo?

Para mim, estar num lugar, senti-lo, vivê-lo, é mais fácil se o desenhar. Por isso andei estes dias munida do meu caderninho, as minhas aguarelas e a minha caneta pincel para registar espaços, pessoas, momentos. Parar para desenhar implica parar para ver com atenção. Abrandar o ritmo, mais a mais numa cidade com o ritmo frenético que se vive em Macau, tem sido uma estranha mas feliz contradição. Tenho desenhado pessoas, o meu tema favorito, mas tenho também desenhado prédios com as suas inúmeras janelas e varandas, com os seus painéis luminosos, com o seu carácter geométrico, próprio do que é tentativa humana de domar o ambiente natural.

E sim, das coisas que mais sinto falta cá em Macau é da sensação de paisagem selvagem, sem mediação humana. Ainda se encontram pequenas manchas, aqui e ali, sobretudo em Coloane, mas é algo raro e que, na minha opinião, deveria ser conservado como se de um tesouro se tratasse. E sim, trata-se de um tesouro, mas a pressão imobiliária é grande.

Uma das maiores emoções foi rever as pessoas que fizeram parte da minha vida há várias décadas atrás e que hoje ainda cá estão, ou para cá voltaram. Reconhecer, nas pessoas de meia idade (a minha idade, aliás), aquelas pessoas que recordava como crianças ou adolescentes foi um exercício constante e que me exigiu uma considerável quantidade de energia. Não é fácil estar desmemoriada e tentar sobrepor as pessoas à minha frente com as memórias que tinha delas; tal como imagino que não seja fácil para elas fazer o mesmo quando me vêem!

Mas, sobretudo, não é fácil aperceber-me de que quando cá vivi, as pessoas de meia idade eram os nossos pais; e que, agora, as pessoas de meia idade somos nós. Confesso-vos que é com muita perplexidade que observo este estranho efeito desta visita a Macau, tantos anos depois.

Mesmo depois de tudo o que vos contei neste episódio, sinto que ainda há tanto por contar, e não posso prometer que esta experiência em Macau não venha a ser mencionada várias vezes em episódios futuros destas “Confissões”.

Por agora, vou buscar o meu caderno e desenhar mais um bocadinho, para abrandar o tempo e me sentir mais presente. Na próxima segunda, lá estarei a desenhar online e em modo síncrono com as participantes do Desenhamos Juntas – e desde já fica o convite para que te juntes também a nós. Deixarei nas notas do episódio o link para a página de informações e inscrições, para que na próxima segunda já te possas juntar a nós. Se me estás a ouvir em Macau, o horário foi escolhido propositadamente para que te possas juntar a nós ao início do serão. Vemo-nos lá – e na semana que vem, aqui nas “Confissões”.

Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em airdesignstudio.com e no Instagram como @‌air_billy.

Se não queres perder nenhum episódio, poderás subscrevê-los na tua plataforma preferida de podcasts, ou então assinarr a newsletter em airdesignstudio.com para os receberes semanalmente na tua caixa de correio.

E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.

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